Carros

GURGEL, O SONHO DO AUTOMÓVEL NACIONAL

A carreira do visionário Gurgel foi marcada pelo patriotismo e valorização do capital nacional.

3/4 de século atrás, um engenheiro alemão disse: “Não pude encontrar o carro esportivo dos meus sonhos, então decidi construir um.”  Tal frase fora pronunciada por Sir Ferdinand Porsche, o responsável pelo projeto do Fusca e fundador da Porsche. Na mesma época, porém do outro lado do oceano, João Augusto Amaral Gurgel, um jovem formando em engenharia pela Escola Politécnica de São Paulo ouviu de um dos seus professores ao apresentar o projeto de um carro popular: “Carro não se fabrica, Gurgel, se compra”. Mudou o projeto da faculdade para um guindaste, mas não se convenceu.

Tião, como chamavam ao João Gurgel, nasceu em Franca em 26 de março de 1926. Em 1958 iniciou sua carreira de empreendedor em uma empresa de moldagem de peças de plástico, denominada Moplast. 6 anos depois, se desligaria da mesma e daria os primeiros passos automobilísticos, fabricando minicarros infantis e karts. 1º de setembro de 1969 era registrada finalmente a Gurgel Indústria e Comércio de Veículos Ltda.

A carreira do visionário Gurgel foi marcada pelo patriotismo e valorização do capital nacional. Seus carros eram projetados com tecnologia e capital brasileiro. Os primeiros eram buggys chamados Ipanema com carrocerias moldadas em fibra de vidro atraía aos litorâneos. Na época a indústria nacional não gozava de boa reputação no tratamento anticorrosivo das carrocerias ferrosas. Outra característica marcante eram os nomes dos carros, valorizando cultura nacional: Ipanema, Xavante, Xingu, Itaipu, Tocantins, Carajás... De personalidade forte, era contrário aos motores movidos a álcool. Apesar de algumas poucas unidades fabricadas a álcool, seguia o raciocínio que a terra deve produzir alimentos, não combustíveis.

Carro elétrico é novidade? Em 1974 (!) Gurgel apresentava o Itaipu E-500, protótipo de excelente ergonomia, mas que era ousado demais para a época. Adventure, Cross? Estepe na traseira? O Gurgel X-12 e suas variantes, utilizando do motor do Fusca, encarava a lama como gente grande. Falando nisso, SUV? O Carajás era um jipe em essência, chegando a ter versão movida a diesel e luxuosas. As forças armadas se utilizavam dos veículos Gurgel dada a robustez.

A menina dos olhos apareceria em meados de 1987. De tecnologia 100% nacional, o projeto inicialmente chamado Carro Econômico Nacional – CENA, foi renomeado para BR-800. Chassi tubular, carroceria de fibra de vidro e motor bi cilíndrico com 33cv não foram bastantes para tornar o valor final do produto baixo. Mesmo com um louvável incentivo fiscal do governo – 5% de IPI ante os 25% de IPI dos outros carros, foi vendido inicialmente somente aos que comprassem algum lote de ações da Gurgel. Em 1991 foi remodelado e de nome novo, Supermini, que vendeu pouco mais de 1500 unidades. Ainda assim o BR-800 foi o primeiro e único veículo fabricado em escala comercial genuinamente brasileiro.

Com a abertura das importações e o incentivo fiscal expandido aos demais carros nacionais com motores abaixo de 1L, a Gurgel pediu concordata em 1993. Havia ainda um projeto Delta e uma possível fábrica no Ceará, que não chegaram a sair do papel. Em uma última tentativa de respiro, João pediu ao governo US$ 20 milhões que fora negado. A fábrica produziu aproximadamente 30 mil veículos, 4 mil deles exportados para mais de 40 países, durante seus 27 anos. Visionário, dinâmico, corajoso, patriota e a frente de seu tempo, João Gurgel faleceu no dia 30 de janeiro de 2009. Coincidentemente na mesma data de falecimento de um tal de Ferdinand Porsche. Obrigado Gurgel!

Yuri Rodrigues Leite

ENTUSIASTA  AUTOMOTIVO DESDE OS TEMPOS DE VELOTROL, ME DEDICO EM BUSCA DE CONHECIMENTO TÉCNICO E MERCADOLÓGICO DO UNIVERSO AUTOMOBILÍSTICO. 
FORMADO EM ENGENHARIA DE CONTROLE E AUTOMAÇÃO PELA UFOP.
TRABALHO ATUALMENTE NO RAMO DE ENERGIA – SUBESTAÇÕES. 
CARRO BOM É CARRO BEM CUIDADO!

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