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As lagoas marginais e a reprodução dos peixes, qual a relação?

Foto: https://wwwportorealcombr.blogspot.com/2010/02/lagoa-de-inhumas.html

Lagoas marginais, como o próprio nome sugere, são corpos d’água localizados às margens de rios, compondo o meio físico das planícies de inundação, e podem ser naturais ou artificiais. Estas lagoas são classificadas como sazonais ou permanentes. As lagoas marginais sazonais são corpos d’água que permanecem cheios apenas durante um período determinado do ano, acompanhando o ciclo de cheias dos rios, conhecido cientificamente como pulso de inundação. Estas lagoas se enchem durante o período de cheia, quando as águas do rio principal ultrapassam o nível de suas margens e inundam as planícies de inundação adjacentes. Quando o nível das águas do rio diminui grande parte da água da planície de inundação volta ao rio ou se concentra em depressões, formando tais lagoas, que secam completamente no período de seca. As lagoas marginais permanentes por outro lado, são corpos d’água que permanecem cheios durante todo o ano, podendo manter ou não comunicação permanente com o rio principal. Geralmente estas lagoas possuem uma fonte de alimentação secundária de água, direto do lençol freático. No entanto, assim como as lagoas marginais sazonais, o volume de água das lagoas permanentes varia de acordo com o ciclo de chuva da região, aumentando no período de chuvas, tanto pela própria precipitação quanto pela entrada de água do rio na cheia, e diminuindo no período de seca, tanto pela volta da água para o rio quanto pela evaporação e infiltração da água na terra (esta última em menores proporções). O município de Iguatama, assim como municípios vizinhos, também às margens do rio São Francisco, como Lagoa da Prata e Doresópolis, possui grandes áreas de planícies de inundação com um número enorme de lagoas marginais sazonais e permanentes. Bons exemplos de lagoa marginal sazonal no município de Iguatama, são aquelas que se formam após grandes cheias do rio São Francisco na planície de inundação próximo à carranca, do lado esquerdo da BR 354 em direção ao município de Bambuí. Quanto à lagoa marginal permanente, um excelente exemplo é a lagoa da Inhuma, localizada próximo à comunidade de Corguinhos, uma das lagoas marginais mais importantes do alto trecho da bacia hidrográfica do Alto São Francisco, que compreende a área entre a Serra da Canastra, nascente do rio São Francisco, e o município de Pirapora, MG. A Lagoa da Inhuma mantem contato com o rio São Francisco e o Ribeirão dos Patos durante a cheia, e fica isolada durante os períodos mais secos do ano, dependendo de chuvas esporádicas e do aporte de águas subterrâneas. A dinâmica da cheia e seca da lagoa da Inhuma é muito interessante e será mencionada em outro artigo.

Bom, após falar de forma geral sobre os dois tipos de lagoas marginais, falaremos um pouco sobre a fundamental relação e importância destas para a manutenção da fauna de peixes (ictiofauna) dos rios. É de conhecimento popular que as lagoas marginais são berçários para peixes. Isso é de fato verdade, e caracteriza uma das grandes funções ecológicas de tais lagoas. Os “filhotinhos” da maioria das espécies de peixes nascem (saem dos ovos) e se desenvolvem (se tornam alevinos) nestas lagoas, que lhes proporcionam alimento e proteção contra predadores. No entanto, a dinâmica geral deste processo é relativamente pouco conhecida pela população. Embora os “filhotinhos” de grande parte das espécies nasçam e se desenvolvam nestas lagoas, existem diferenças importantes e interessantes de acordo com a história de vida das diferentes espécies.

Como é de conhecimento comum da população, principalmente as ribeirinhas, existem diferentes espécies de peixes nos rios. Atualmente são conhecidas aproximadamente 241 espécies de peixes na bacia do rio São Francisco, distribuída em toda a sua extensão desde a sua nascente na serra da Canastra até a sua foz entre os estados Alagoas e Sergipe.  A diversidade de peixes está intimamente ligada aos diversos ambientes (lagoas marginais, galhadas, corredeiras, riachos e etc.), presentes na bacia. Isso quer dizer que estes ambientes são responsáveis por moldar algumas características físicas dos peixes, como formato do corpo, dos dentes, tamanho do olho, formato das nadadeiras e coloração, e algumas características comportamentais, como as estratégias alimentar e reprodutiva. Está ultima é definida por um conjunto de características como, o período e local de desova, duração do período de desova, tipo e quantidade de ovos, formação de casais, formação de ninhada, cuidado com a prole dentre tantos outros.

Em relação à estratégia reprodutiva, podemos dizer de forma geral que os peixes podem ser classificados como migradores ou sedentários. Os peixes migradores (ex. dourado, curimbas, algumas espécies de piaus, suribim) tem o início do ciclo reprodutivo marcado pelo início das chuvas, é nessa época que ocorre o aumento dos níveis da água, do oxigênio dissolvido e da turbidez (fica mais “suja, barrenta”), e redução da temperatura dos rios. Estes fatores ambientais servem como um gatilho de liberação hormonal nos machos e fêmeas adultos destas espécies. Estes hormônios por sua vez, induzem o amadurecimento das gônadas (ovários e testículos) e a migração reprodutiva (piracema) em direção à cabeceira dos rios. Machos e fêmeas então iniciam uma longa viagem em cardume pelas margens dos rios. Ao longo desta viagem as gônadas masculinas e femininas continuam se desenvolvendo, até chegar o momento em que finalmente as fêmeas desovam (NO RIO) milhões de pequenos ovos e os machos, simultaneamente, milhões de espermatozoides formando uma grande “nuvem” de gametas. Os espermatozoides dos machos, assim que entram em contato com a água entram em atividade e fertilizam grande parte dos ovos das fêmeas, formando uma massa flutuante de ovos fertilizados conhecidas cientificamente como ictioplâncton, que ficam à mercê das corredeiras. As corredeiras então, conduzem o ictioplâncton para dentro das planícies de inundação. Com a diminuição do nível da agua dos rios e a formação das lagoas marginais, estes ovos eclodem e os peixes nascem. Após consumirem o vitelo (reserva energética), eles abrem a boca e começam a se alimentar de microrganismos, insetos e etc, que existem em abundância nestas lagoas.

Os peixes sedentários (ex. piranha, cavaco, piabas, peixe cachorro, cascudos, algumas espécies de piaus, algumas espécies de bagres) por outro lado, não se movimentam muito para reproduzir, podendo no máximo realizar migrações laterais curtas (dos rios às lagoas marginais), produzem um número reduzido de ovos com maior tamanho, que podem ser aderir uns aos outros e ao substrato (pedras e vegetação dentro e na margem dos rios), apresentam cuidado parental em alguns casos (os pais cuidam dos filhotes), garantindo assim uma maior taxa de sobrevivência, e a reprodução pode durar de 4 a 12 meses. Estas espécies podem completar seu ciclo de vida em habitas lênticos (lagos, poços, açudes e lagoas marginais), renovando as populações, uma vez que podem reproduzir (se o ambiente estiver favorável).

Geralmente, principalmente em nossa região, ocorre nos meses finais do período reprodutivo destas espécies uma pequena cheia (a enchente das goiabas em Março) que reconecta o rio às lagoas marginais, permitindo o retorno dos alevinos (tanto de espécies migradoras quanto das sedentárias) para o rio, num processo conhecido cientificamente como recrutamento. O recrutamento não só aumenta o número de indivíduos nas populações dessas espécies, como também e principalmente a variabilidade genética, o que é fundamental para a sobrevivência das espécies ao longo do tempo. Além do mais, as lagoas permanentes, por se manterem cheias o tempo todo, servem como estoque (principalmente genético) de populações das mais diversas espécies de peixes para a bacia. Assim, quando estas lagoas voltam a se conectar com os rios, os indivíduos jovens, jovens adultos e adultos retornarão ao rio, e novos ovos irão entrar, refazendo este ciclo tão importante. É importante salientar que as logoas desempenham inúmeras outras funções ecologias extremamente importantes para todos os animais, inclusive os seres humanos, como por exemplo, a preservação de recursos hídricos.

Estudos científicos mostram que as espécies migradoras necessitam necessariamente do processo de migração contracorrente para amadurecer suas gônadas e desovar. Até o momento, não existem evidências de que estas espécies consigam sucesso reprodutivo em ambiente lêntico (lagos e lagoas marginais). Ou seja, as espécies migradoras, ao contrário das sedentárias, não conseguem reproduzir-se dentro de lagos, poços, açudes e lagoas marginais. Isto é particularmente importante de se ter em mente, uma vez que implica que quando uma lagoa marginal permanece muito tempo sem contato com o rio, as populações das espécies migradoras tendem a permanecer estáticas (com o mesmo número de indivíduos) ou diminuir através das retiradas de indivíduos pela pesca, ou predação natural. Vamos supor que a lagoa da Inhuma que está sem conexão com o rio a aproximadamente 6 a 7 anos possui uma população de curimba (um peixe migrador) com 100 exemplares. Se por acaso, a lagoa nunca mais se conectar com o rio São Francisco e Ribeirão dos Patos, ovos fertilizados destas espécies, nunca mais entraram, e a população não aumentará mais. Pelo contrário, os indivíduos serão retirados até que a população destas espécies neste local seja extinta.

Bom, vimos os dois tipos de lagoas marginais, suas características e como estas são formadas, e os dois tipos básicos de estratégias reprodutivas de peixes e como estas funcionam. Ficou claro também que as lagoas marginais, por possuírem alimentação em abundância e proteção contra predadores, são particularmente importantes para o processo reprodutivo das diferentes espécies, principalmente na manutenção de populações saudáveis destas espécies para bacia hidrográfica inteira através do processo de recrutamento.

A diminuição das populações das diferentes espécies de peixes na nossa região é notável, principalmente aquelas com importância na pesca de subsistência e comercial, que compreendem basicamente as espécies migradoras. Isso se deve principalmente a dois fatores diferentes, a diminuição drástica do processo de recrutamento (entrada de indivíduos nas populações das diferentes espécies) e a pesca predatória (retiradas das matrizes reprodutoras, peixes adultos). Embora o processo de reprodução e desova esteja ocorrendo na nossa região, a massa de ovos fertilizados flutuantes (ictioplâncton) não estão entrando nas lagoas marginais, uma vez que estas não têm se conectado com o rio. Assim sendo, o ictioplâncton é levado rio abaixo, e o local de nascimento e desenvolvimento dos “filhotinhos”, assim como a porcentagem de recrutamento é desconhecida. Isto vem sendo investigado por uma equipe de pesquisadores da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC Minas), através de um grande projeto em parceria com a CEMIG, coordenado pelos Professores Gilmar Bastos e Gustavo Rosas. Por outro lado, a pesca excessiva que vem acontecendo em nossa região, tanto nos rios quanto nas lagoas, com arrastos, tarrafas e redes com malhas proibidas, vem retirando excessivamente potenciais indivíduos matrizes, adultos saudáveis. Assim, as populações estão sendo “atacadas” de cima pra baixo (na retirada das matrizes) e de baixo para cima (na diminuição drástica do recrutamento na região). Por tanto, é de extrema importância respeitar o período de piracema, de reprodução dos peixes, e evitar a captura de exemplares de espécies migradoras em lagos, poços e lagoas marginais que possam eventualmente se conectar ao rio durante as cheias, para manter populações saudáveis de todas estas espécies em toda a bacia. Não só para mantê-las existindo, mas também para garantir estoque pesqueiro, do qual dependem muitas famílias, tanto para a alimentação diária quanto como fonte de renda.

O objetivo de expor todas estas informações é o de informar e conscientizar a população sobre a importância do período reprodutivo dos peixes e das lagoas marginais nesse processo. Acredito que o conhecimento é a ferramenta mais importante para o desenvolvimento sustentável, ou seja, para utilizar os recursos naturais de forma a manter sempre um estoque saudável disponível para o futuro, para continuar utilizando. É de certa forma egoísmo e autodestrutivo extrair os recursos disponíveis de forma inconsciente, de forma excessiva, é dar um tiro no próprio pé. A pesca é uma das atividades mais antigas da humanidade, sendo importante como fonte de proteína, como fonte de renda e também como lazer. É desejável por todos nós que esta atividade continue para sempre, para isso devemos buscar respeitar os locais e período de desova e desenvolvimento das espécies. Com esta finalidade uma série de regulamentações legais foram criadas.Atualmente as lagoas marginais são consideradas Áreas de Preservação Ambiental (APA) e são protegidas pela lei estadual 11.943/1995. A lei estadual 20.922/2013, o código florestal do estado de Minas Gerais, dispõe sobre as políticas florestal e de preservação ambiental, determinando o que são consideradas e como são regulamentadas as Áreas de Uso restrito (Áreas de Preservação Permanentes, Reservas Legais, Unidades de Conservação), a Agricultura Familiar, as Florestas, e etc. A Lei estadual 14.181/2002 dispõe sobre a política e proteção à fauna e à flora aquática e de desenvolvimento da pesca e da aquicultura. A Portaria do Instituo Estadual de Florestas (IEF-MG) 154, dispõe sobre a regulamentação da pesca na Bacia Hidrográfica do rio São Francisco, no estado de Minas Gerais, no período de piracema. Para mais informações referentes às legislações pertinentes sobre pesca e áreas de preservação natural, indicamos o acesso ao site do IEF (www.ief.mg.gov.br).

 

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